CAPITULO II

 

- Não! – tentou gritar, mas não tinha forças para mais nada.

Ele foi engatinhando até o lugar onde ficava o hospital da cidade. Não sobrara muita coisa, mas uma carroça sem nenhum animal, estava lá. Inteira, com muitos medicamentos de primeiros socorros.

Não entendia muito sobre essas coisas, mas foi procurando algo que lhe ajudasse. Nada achou.

Olhou para o seu ferimento, a bala atravessou seu corpo, ou seja, ela não estava mais dentro dele. Procurou alguma atadura para tapar o ferimento, lá havia várias.

Fez o melhor que pode limpando o ferimento com um balde de água e passando um remédio que sua mãe costumava passar em seus machucados.

Enquanto fazia o seu curativo, pensava na sua mãe, nas pessoas que ali viviam. Onde elas estariam? Seus corpos não estavam lá na cidade e para que eles enterrariam ou levariam corpos de mortos pra onde quer que fosse?

- Será que foram presas – tentava acreditar que as pessoas ainda estariam vivas, mas era difícil manter esse pensamento depois de seu sonho.

Ficou pensando no que poderia ter acontecido até adormecer.

Sonhou com uma montanha e nela estava a sua mãe conversando com um homem. Ele correu como se estivesse fugindo da morte para perto dela, mas simplesmente ele não saia do lugar, era como se ela estivesse se afastando dele.

Mas ele cai num abismo e...

 

Ilyon acorda, abre os olhos e vê a cidade destruída à sua frente.

De uma coisa, nesse momento, ele não podia reclamar: sua dor no peito desaparecera. Ele recuperou um pouco de sua força dormindo.

Se levantou com muito cuidado e foi andando, aos tropeços, até onde era a sua casa, agora só restava destroços dela. Entrou, poucas coisas ficaram inteiras. Na cozinha, a comida queimada por inteiro. Não sobrara nada. De suas roupas, sobraram apenas trapos. Mas ainda havia algumas que podiam ser utilizadas.

Ilyon pegou algumas peças de roupa e foi até onde era o banheiro, não tinha paredes, mas ele não estava preocupado e tirou a roupa (Não havia ninguém lá). Do lado de fora haviam vários baldes cheios d’água que resistiram.

Molhou o corpo e pegou suas roupas, lavando-as também, as vestiu molhadas mesmo, pois fazia muito calor.

Saiu e sentiu muita fome, não comia fazia um dia inteiro (em seus cálculos).

Foi até onde era a casa do dono da mercearia, haviam muitas caixas com comida em um balde no fundo da mercearia, onde boa parte da comida foi queimada.

Havia muitas verduras que não podiam mais ser aproveitadas... Haviam pães no mesmo estado... E... Carne! A carne poderia ser aproveitada. Ela estava seca, mas dariam um churrasco suculento para alguém com a fome de Ilyon.

Ilyon sempre fizera cara feia para carne. Era o alimento que ele menos gostava, mas com tanta fome, mesmo seca, era um banquete.

Quando terminou de comer, foi até a casa de sua amiga Sammy. Há dois dias atrás, seria uma alegria imensa visitá-la, mas depois de tudo que vira e sonhara... Ele estava com medo, sentimento muito incomum nele, de confirmar sua morte. “E se eu encontrar o corpo de Sammy?”, era a única coisa com a qual pensava no caminho.

Mas uma característica marcante de Ilyon era nunca se dominar pelo medo “Principalmente agora que estou sozinho” pensou.

No momento que chegou lá, lembrou de um momento marcante em sua vida: um aniversário de Sammy. Nesse dia ele havia a ignorado todo o dia e a noite a presenteou com uma festa surpresa. Ele sorriu quando se lembrou que ela tinha ficado lambuzada de ovo.

- Sammy, estou com saudades... – Ilyon não costumava dizer ou até pensar isso, nunca perdera alguém especial, com exceção de seu pai.

Ele entrou onde ficava a casa da sua querida amiga e olhou todos os poucos detalhes que restaram... Os moveis queimados, cadeiras em pedaços, o sofá estava acabado e um... Colar! Era o colar que Sammy nunca tirava. Em forma de coração e com espaço para duas fotografias, era muito bonito, ela havia ganhado de seu pai quando tinha apenas dois anos de idade. Ela esperava encontrar alguém digno de ter sua fotografia lá, mas na verdade ela esperava o alguém que iria roubar seu coração.

Ilyon o pegou e colocou no pescoço. Ele a considerava uma irmã, por isso nunca se interessou em ter sua fotografia no colar.

Relembrando o passado destruído, tentando se recuperar do ferimento, dormindo e comendo foram as únicas ações que Ilyon conseguia fazer durante seis longos dias “Parece que os dias nunca vão acabar”, dizia Ilyon.

No sétimo dia, ele estava deitado, com lágrimas no seu rosto... Ao contrario que qualquer um podia pensar se o visse, ele não estava tendo pesadelos, estava realmente chorando... “Minha vida virou um pesadelo há uma semana atrás”, suas ultimas palavras antes de abrir os olhos.

Mas realmente antes de abrir os olhos, ele desejou pela ultima vez que tudo não passasse de um sonho e que sua mãe estava o esperando nervosa na cozinha o seu filhinho dorminhoco que estava atrasado para a escola.

Abriu os olhos e...

- Decepção... Cadê a minha mãe, meus vizinhos, amigos? – seu pensamento diário junto com a vontade de ter morrido junto a sua cidade.

Sua vida virara uma rotina e pior ainda triste. A próxima lagrima estava a ser derramada quando:

- ISSO!!! Mudança! Acabou minha ilusão! Minha vida mudou a começar pelo meu sobrenome: Cloudyheart, Ilyon Cloudyheart, sou um guerreiro como outros da minha família foram, vou lutar contra a minha tristeza e formar uma nova vida! – gritou Ilyon.

Cloudyheart, coração gelado, era assim que sentia no peito, algo triste, distante, gelado. Mudar seu sobrenome significava mudar muito mais do que qualquer um possa imaginar, era mudar de vida, esquecer o passado e viver um novo presente com novos objetivos.

Arrumou sua simples mochila com algumas roupas, um pouco de comida (um cereal que ele preparara para se fortalecer) e ataduras (seu braço não havia cicatrizado, ainda).

-       Partir pra onde? – uma pergunta feita pra si mesmo enquanto preparava sua mochila, ele só sabia que queria algo diferente, uma nova alegria, talvez... Pra onde não sabia direito, ele simplesmente...

... partiu.